Aprender a ser: o lugar do indivíduo no mundo

Aprender a ser: o lugar do indivíduo no mundo

A importância de um sistema funcional e do desenvolvimento de conexões positivas do indivíduo na jornada do aprender a ser.

Para o tema de hoje, trago para nossa reflexão o ato de “aprender a ser” e como ele se localiza em um sistema funcional, equilibrado, e no desenvolvimento de relações positivas do indivíduo nessa jornada. Mas, para isso, penso que é necessário trazer à luz reflexões sobre o que é justiça. Isso porque, ao desenvolvermos a ideia de sistema funcional e o lugar do indivíduo nesse mesmo sistema e em como ele é relevante na construção do “ser”, precisamos entender como o universo individual se conecta com o universo coletivo. Vamos desbravar juntos esse tema?

O conceito de justiça como elo entre o indivíduo e a comunidade

Quando proponho trazer reflexões sobre justiça, desejo, primeiramente, apontar como a esfera individual caminha junto com o contexto coletivo. Em outras palavras, proponho pensar que, quando uma “lesão” acontece, por exemplo, ela causa dor e sofrimento às pessoas envolvidas no fato e ao todo que as cercam (inclui-se a comunidade). Pensar em justiça também é buscar meios para reparar a “lesão” ocasionada por uma ação ou omissão e, ao mesmo tempo, promover a cura coletiva e não somente olhar de forma individualizada. Mas não é normalmente isso o que acontece.

Justiça: reparadora de danos ou conservadora da violência?

Hoje ainda se tem a ideia de que justiça é “resolver o mal cometido por meio de um pagamento somente” (a ideia da punição de quem ocasionou a dor e o sofrimento como único recurso, sem se interessar pelo que é intimamente importante para quem sofreu o “dano” – a vítima –, pelo que está por trás da ação de quem cometeu o “dano” – o ofensor – e pelas consequências “do” e “no” sistema social que liga todos os indivíduos – as relações). 

A justiça, infelizmente, na maior parte dos contextos, é utilizada como exemplo “inconsciente” de promoção ou manutenção da violência e não com o sentido de restauração da humanidade e esperança para todos!

A compreensão da palavra justiça enquanto valor humano não deveria partir de uma lógica que gera e fomenta mais violência/mais dor para o indivíduo e para o coletivo. Pelo contrário, deveria objetivar a promoção do equilíbrio, pessoal e social, para que todo ser humano se sinta seguro e pertencente, utilizando-se da sua liberdade – consciente das suas responsabilidades – para viver uma vida plena e que faça sentido para ele estar vivo e estar com o outro (ser vivo de um modo geral).

A importância de um sistema funcional e o direito-dever de aprender a ser

Partindo das reflexões trazidas acima sobre justiça, cabe pensar como tornar possível um sistema funcional – que se desenvolve com uma base sólida em valores humanos, os quais funcionam para atender as necessidades, individuais e coletivas, de quem se serve dele e é responsável pela manutenção/continuidade deles. E a convivência (o estar com o outro), quando se concretiza funcional (daí a ideia de um sistema funcional, saudável), transmite aos indivíduos a importância do cultivo/da prática dos valores humanos para uma vida mais integrativa, ou seja, uma vida coletiva que ensina e favorece ao indivíduo um cuidado com o todo: mente, corpo e emoção.

Cada indivíduo possui dentro de si a presença simultânea do sistema macro (a sociedade, tendo o Estado como regulador e, por isso, influenciador desse sistema) e do sistema micro (tendo a comunidade familiar como um núcleo de maior influência). Tentar analisar esses dois sistemas quanto à proporção de influência/de peso na constituição de um indivíduo é algo extremamente desafiador, pois acredita-se que esses dois sistemas se alimentam e projetam um no outro aquilo que cada um cultiva e pratica no seu interior.

Contudo, para pensar em mudança de paradigma, é preciso refletir de que modo a forte presença desses sistemas está, consciente e inconscientemente, pressionando e “depositando” os valores humanos de forma distorcida, sem que permita ao indivíduo um espaço necessário para o seu desabrochar natural, ou seja, promova um importante “direito-dever” desse indivíduo enquanto pessoa, que é aprender a ser! 

Aprender e reaprender a ser

Olhando as particularidades de cada sistema (o macro e o micro, conforme apresentado anteriormente), o que normalmente acontece é que, de modo automático/anestesiado e, por isso, depositário e não construído com trocas saudáveis, os dois sistemas “convencem” ao indivíduo desde pequeno que o que eles fazem e como eles fazem são para sua defesa, sua proteção e não abrem ou criam oportunidades para conversas significativas e para exteriorização dos pensamentos críticos e inovadores. Consequentemente, o que transmitem é dominação e controle. 

Assim, esse indivíduo cresce aceitando, sem se dar conta, que o que lhe traz segurança e o que lhe faz sentir-se seguro estão do lado de fora (no meio externo). Ou seja, a escuta e a valorização da intuição, bem como a consciência e a expressão dos sentimentos não são movimentos considerados fundamentais e referenciais de como ele se apresenta para o mundo (quem ele é!).

Sendo assim, muitas vezes, os dois sistemas impedem que o indivíduo desenvolva sua autonomia e construa o senso de liberdade com responsabilidade, deixando-o dependente da realidade que é imposta a ele.

O indivíduo, desde a infância e com a ajuda/auxílio de um sistema funcional, precisa aprender a ser a partir do desenvolvimento da autoescuta e auto-observação e da regulação das emoções para que tome consciência da possibilidade de apoiar-se em seus próprios recursos internos e não somente em uma realidade ou pessoa fora dele mesmo. 

Por meio de práticas (vivências) que discutem, fecundem e fortalecem os valores humanos, é possível pensar em “como” um sistema funcional pode conduzir o indivíduo a ser a partir da essência e a confiar nas suas próprias forças, e, simultaneamente, inseri-lo no ambiente coletivo preservando sua própria autonomia – reconhecendo e empregando as suas individualidades, suas competências, criando, portanto, um verdadeiro sistema funcional.

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